Tiana Cardeal: 93 anos de resistência, dignidade e memória da população travesti no Brasil
Por Alielson Santos Alves
Secretário de Diversidade do SINTTEL Bahia e Secretário de Diversidade da FENATTEL
A história da população travesti e transexual no Brasil é marcada por exclusão, violência e resistência. Em um país que, há anos, figura entre os países com os maiores índices de assassinatos de pessoas trans no mundo, chegar à velhice como travesti representa um feito histórico e, ao mesmo tempo, uma denúncia das desigualdades enfrentadas por essa população. Nesse contexto, a trajetória de Tiana Cardeal, nascida em 1932, torna-se um importante patrimônio vivo da história LGBTQIAPN+ brasileira.
Natural de Governador Valadares, em Minas Gerais, Tiana Cardeal cresceu em um período em que sequer existiam debates públicos sobre identidade de gênero ou direitos das pessoas trans. Foi criada por diferentes famílias e sem conhecer seus pais biológicos, enfrentando, desde muito cedo, o abandono, a pobreza e a necessidade de lutar diariamente pela própria sobrevivência.
Como milhares de travestis brasileiras, Tiana encontrou poucas oportunidades de trabalho em razão do preconceito estrutural. Durante décadas, exerceu atividades como lavadeira e empregada doméstica, desempenhando tarefas exaustivas para garantir seu sustento. Sua história evidencia uma realidade que ainda persiste: a exclusão da população trans do mercado formal de trabalho, consequência direta da discriminação e da ausência de políticas públicas efetivas de inclusão.
Entretanto, reduzir a trajetória de Tiana apenas às dificuldades seria ignorar a dimensão de sua força. Sua vida representa uma resistência cotidiana construída por meio do trabalho, da fé e da permanência em sua comunidade. Católica praticante, Tiana demonstra que espiritualidade e identidade de gênero podem coexistir, contrariando discursos que, historicamente, buscaram afastar pessoas LGBTQIAPN+ dos espaços religiosos.
Chegar aos 93 anos como uma travesti assumida é, por si só, um marco político. A expectativa de vida da população trans brasileira continua sendo significativamente inferior à média nacional, consequência da violência, da exclusão social, da falta de acesso à saúde, à educação, ao emprego e à segurança. Nesse cenário, Tiana simboliza uma geração que sobreviveu apesar de todas as estruturas que tentaram apagá-la.
Sua existência também provoca uma importante reflexão sobre a preservação da memória. A história do movimento LGBTQIAPN+ brasileiro não pode ser contada apenas por grandes manifestações ou conquistas legislativas. Ela também é construída por pessoas como Tiana, que resistiram cotidianamente em seus territórios, preservando sua identidade mesmo diante da perseguição, da marginalização e do preconceito.
Valorizar histórias como a de Tiana Cardeal significa reconhecer que a luta pelos direitos da população LGBTQIAPN+ possui raízes profundas. Antes mesmo da existência de políticas públicas, conselhos de direitos ou legislações voltadas ao combate da discriminação, havia pessoas vivendo suas identidades com coragem, abrindo caminho para que as novas gerações pudessem reivindicar cidadania, respeito e reconhecimento.
Ainda hoje, a população travesti enfrenta enormes desafios. A violência permanece alarmante, as oportunidades de acesso ao mercado de trabalho continuam limitadas e o acesso a direitos básicos segue profundamente desigual. Por isso, homenagear Tiana não deve ser apenas um gesto simbólico, mas um compromisso coletivo com a construção de políticas públicas que garantam envelhecimento digno, saúde integral, acesso ao trabalho, moradia e proteção social para pessoas trans e travestis.
Na condição de Secretário de Diversidade do SINTTEL Bahia e da FENATTEL, compreendo que o movimento sindical também possui responsabilidade nesse processo. A defesa dos direitos trabalhistas precisa caminhar lado a lado com o combate à LGBTfobia, promovendo ambientes de trabalho inclusivos e garantindo que pessoas trans tenham acesso às mesmas oportunidades que qualquer trabalhador ou trabalhadora.
Tiana Cardeal não representa apenas uma história individual. Ela simboliza uma geração inteira que resistiu quando a sociedade insistia em negar sua existência. Sua trajetória nos ensina que a luta pela diversidade é também uma luta pela memória, pela dignidade e pela justiça social.
Que sua vida continue inspirando o movimento LGBTQIAPN+, os sindicatos, os movimentos sociais e toda a sociedade brasileira a construir um país onde nenhuma pessoa precise lutar apenas para existir. Preservar a memória de Tiana Cardeal é preservar a história da resistência travesti no Brasil, uma história que merece ser conhecida, preservada, respeitada e celebrada.



